Nitsche e Tozzi: a pop art brasileira




Nascidos em São Paulo, Marcello Nitsche (1942) e Claudio Tozzi (1944), viveram como jovens artistas no início da década de 1960 o impacto da pop art da qual Warhol é ícone. A mostra Nitsche e Tozzi: a pop art brasileira reúne 17 obras de cada artista. A exposição permanecerá até 21 de maio.


O curador da exposição, o crítico Jacob Klintowitz, diz: “A pop art é um produto direto da sociedade de produção e consumo em massa. É a maneira de a arte ver o universo dos objetos, o mundo das coisas. A nossa é muito diferente da americana, pois tem um caráter crítico, irônico, político e, às vezes, carnavalesco. Marcello Nitsche e Claudio Tozzi estão entre os melhores. Eles são profundamente originais e conseqüentes e criaram uma extensa iconografia. Com a atual exposição de Andy Warhol na Pinacoteca de São Paulo, e o brilho, eficiência e objetividade de seus trabalhos, é uma boa hora para observar estas diferenças.”


As duas exposições patrocinadas pelo Citi são uma excelente oportunidade para se usufruir a pop art americana e brasileira separadas por alguns quilômetros na mesma cidade. Como disse o célebre físico e crítico de arte Mário Schenberg “uma autêntica arte pop brasileira só pode nascer em São Paulo, cidade moderna quase sem presença viva do passado, onde a massificação contemporânea se faz sentir com força incomparavelmente maior do que nas demais cidades brasileiras”.


O Espaço Cultural Citi é uma galeria pública visitada mensalmente por cerca de 50 mil pessoas que trafegam entre a Avenida Paulista e a Alameda Santos. O espaço mantém a sua vocação de mostrar obras de arte no centro vital de São Paulo. Desde 2005, passaram por ali as obras de nomes consagrados, como Rubens Gerchman, Luiz Paulo Baravelli, Gregório Gruber, Romero Britto, Newton Mesquita, Odetto Guersoni, Ivald Granato, Takashi Fukushima, Caciporé Torres, Sérgio Lucena e a ceramista Shoko Suzuki, além de jovens que se firmam como Luciana Maas e Manu Maltez, entre outros.


O Espaço Cultural Citi (Av. Paulista, 1111, térreo, fone 11.4009.3000) fica aberto para visitação de segunda a sexta-feira, das 9 às 19 horas; aos sábados, domingos e feriados, das 10 às 17 horas. Acesso de pessoas com deficiência física pela Alameda Santos, 1146. A entrada é gratuita.



Nitsche e Tozzi: a pop art brasileira, por Jacob Klintowitz


Marcello Nitsche é o lúdico criador de universos que reinventam o puer eternus, a eterna criança. É o que faz emergir em nós. É raro um artista com tanta espontaneidade no gesto e na invenção estética. Ele pertence à categoria dos que sabem sem percorrer o caminho do raciocínio dedutivo. Ele, de repente, sabe. O artista Marcello Nitsche gosta de andar no limite, entre fronteiras, na terra de ninguém. É utópico. Ele criou as “pinceladas” em material rígido, como se fosse uma placa, com os respingos e as falhas das cerdas do pincel. Não é pintura, escultura ou um objeto tradicional, já que nem corpo tem, é uma espécie de alma da pincelada. É assim que ele se move, por estes caminhos incógnitos, desfiladeiros fora do mapa, mexendo na estrutura das coisas, como uma criança que desmonta o brinquedo e – surpresa! – quando remonta, o que era um rádio transforma-se em bicicleta. Isto é impossível. Agora, como explicar isto para o Nitsche? Ou, melhor, como contar para a bicicleta que ela não é bicicleta, mas um rádio?


O artista Claudio Tozzi sempre criou imagens a partir dos objetos e dos acontecimentos do cotidiano. Os seus modelos foram os personagens e as cenas que fazem parte da vida de cada um: a notícia do jornal, a embalagem na gôndola, o destaque do telejornal. Tozzi tornou temas o "Bandido da Luz Vermelha", os "Astronautas", "Veneza", o "Parafuso", as "Escadas" e transformou o banal em paradigma, pois os elevou à condição de imagens do século vinte através das quais é possível entender o contingente. O artista mostrou o universo de objetos que impregna a vida atual e tornou equivalentes os vários elementos da nossa realidade. A história de crime do jornal, a notícia do astronauta na lua, o parafuso, visões dos canais venezianos, tem para nós o mesmo impacto e recebem a mesma atenção. São partes integrantes de um universo de comunicação e de extraordinárias transformações.




Breves Biografias


Marcello Nitsche (São Paulo SP 1942). Pintor, artista intermídia, escultor, desenhista, gravador, professor. Cursa a Faculdade de Belas Artes da Fundação Armando Álvares Penteado - Faap, em São Paulo, onde conclui a licenciatura em desenho, em 1969. Recebe, nesse ano, o prêmio da Prefeitura do Município de São Paulo para obra de pesquisa mais relevante na Bienal Internacional de São Paulo. No início da carreira, atua como gravador, passando logo depois a se dedicar à pintura. Aproxima-se da arte pop, realizando pinturas inspiradas no processo de elaboração da imagem utilizado nas histórias em quadrinhos. Desde os anos 1980, a gestualidade da pintura e a trama de pinceladas passam a ser temas centrais em sua produção. Possui esculturas em espaços públicos, como Garatuja, 1978, uma estrutura modulada, instalada na praça da Sé, e Pincelada Tridimensional, 2000, no parque da Luz, ambas em São Paulo. Em pinturas realizadas a partir de 2001, inspira-se nos códigos de barra, e explora linhas verticais e seqüências de números.


Claudio José Tozzi (São Paulo SP 1944). Pintor. É mestre em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU-USP. Em suas primeiras obras, o artista revela a influência da arte pop, pelo uso de imagens retiradas dos meios de comunicação de massa, como na série de pinturas Bandido da Luz Vermelha (1967), na qual remete à linguagem das histórias em quadrinhos. O artista trabalha com temáticas políticas e urbanas, utilizando com freqüência novas técnicas em seus trabalhos, como a serigrafia. Em 1967, seu painel Guevara Vivo ou Morto, exposto no Salão Nacional de Arte Contemporânea, é destruído a machadadas por um grupo radical de extrema direita, sendo posteriormente restaurado pelo artista. Tozzi viaja a estudos para a Europa em 1969. A partir dessa data, seus trabalhos revelam uma maior preocupação com a elaboração formal e perdem o caráter panfletário que os caracterizava. Começa a desenvolver pesquisas cromáticas na década de 1970. Nos anos 80, sua produção abre-se a novas temáticas figurativas, como é possível observar nas séries dos papagaios e dos coqueirais. Apresenta também a tendência à geometrização das formas. Na realização dos quadros utiliza um rolo de borracha de superfície reticulada, o que agrega novos aspectos às suas obras, como textura e volumetria. Passa a realizar trabalhos abstratos, nos quais explora efeitos luminosos e cromáticos. Cria painéis para espaços públicos de São Paulo, como Zebra, colocado na lateral de um prédio da Praça da República e outros ainda na Estação Sé do Metrô, em 1979, na Estação Barra Funda do Metrô, em 1989, no edifício da Cultura Inglesa, em 1995; e no Rio de Janeiro, na Estação Maracanã do Metrô Rio, em 1998.

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